Oficinas fazem parte do processo de desenvolvimento de tecnologia social que irá relacionar saberes tradicionais a bases científicas nacionais
Conhecimentos construídos ao longo de gerações por povos e comunidades tradicionais da Amazônia poderão ser registrados e relacionados a informações científicas por meio de uma plataforma digital desenvolvida com participação das próprias comunidades. A tecnologia é uma das principais entregas previstas pelo projeto “Monitoramento Participativo dos Territórios Tradicionais: plataforma digital de coprodução de dados”, iniciativa Amazônia +10 que completa um ano e meio de atuação em nove territórios do Pará, Maranhão e Amazonas, e que contabiliza 13 oficinas promovidas nas regiões.
Executado por pesquisadores da Universidade Federal do Pará, Universidade Federal do Maranhão, Universidade Federal do Amazonas e Universidade de Leicester, na Inglaterra, o projeto reúne ciência, tecnologia e conhecimento tradicional em um processo de coprodução de dados sobre os territórios e sua sociobiodiversidade. Desde 2025, a iniciativa promove oficinas e atividades participativas envolvendo 16 comunidades e diferentes grupos sociais, entre quilombolas, ribeirinhos, pescadores, agricultores, artesãos, lideranças comunitárias e associações.
As ações incluem mapeamentos georreferenciados, dinâmicas participativas e levantamento de informações que deverão subsidiar a construção da plataforma digital. As 13 atividades já realizadas visaram integrar as comunidades na produção científica coletiva, além de promover um diálogo entre a ciência e o conhecimento ancestral.

Mulheres de Bragança, no Pará, recebem certificado após oficina promovida pelo projeto Monitoramento Participativo.
Segundo a coordenadora do projeto, Profª Drª Nírvia Ravena, da UFPA, a coprodução científica é um dos principais fundamentos da iniciativa. “A coprodução é uma das marcas desse projeto, somada à importância da interação com base na cooperação, mas uma cooperação que tem a questão dos recursos de poder mais alinhada pela facilitação do nosso projeto”, explica.
As oficinas e atividades são realizadas a partir das metodologias de coprodução científica, que buscam evocar sentimentos, subjetividades e vivências nos territórios, com o intuito de aprofundar a experiência ribeirinha, pesqueira, quilombola e artesã da Amazônia Legal.

Comunidades da RDS Puranga Conquista, no Amazonas, participam de oficina promovida pelo projeto, evocando a memória e a criatividade sobre seus territórios.
ATUAÇÃO NA AMAZÔNIA
Desde 2025, quando o projeto iniciou as atividades, as articulações, planejamento e atuação nos territórios foram intensivas. No Amazonas, as atividades chegaram à Reserva de Desenvolvimento Sustentável Puranga Conquista, no município de Manaus, e reuniu cinco comunidades da região: Arara, Bela Vista do Jaraqui, Jaraquizinho, Pagodão e Santa Maria.
Já no Pará, três municípios participaram da etapa atual do projeto: Santa Luzia do Pará, Bragança e Santarém. Em Santa Luzia, a equipe articulou diálogos com o Território Quilombola Tipitinga, adentrando nos aspectos de pertencimento e articulação interna para políticas sociais. Em Bragança, foram contempladas as comunidades da Reserva Extrativista Caeté-Açú, com grupos da Vila dos Pescadores, Bonifácio, Abacateiro II, Vila Que Era, Taquandeua e Vila no Treme. Por fim, em Santarém, os trabalhos estão sendo realizados no território quilombola Murumuru.
No caso do Maranhão, as atividades foram desenvolvidas em São Raimundo das Mangabeiras, na Comunidade Descanso, na PAE Bacuri e na PA Nova Descoberta.
Ao todo, são 16 comunidades envolvidas nas atividades, oficinas, workshops, rodas de conversa, mapeamento georreferenciado, entre outras questões.

Moradores do Território Quilombola de Murumuru, em Santarém, no Pará, participando das dinâmicas de engajamento e reconhecimento do projeto.
TECNOLOGIA SOCIAL ALIADA AO CONHECIMENTO TRADICIONAL
As próximas etapas do projeto contemplam o desenvolvimento da plataforma de registro e validação do conhecimento tradicional associado à biodiversidade, configurada como uma tecnologia social de domínio comunitário e operada por meio de aplicativo móvel.
A ferramenta funcionará como um repositório digital e utilizará inteligência artificial para relacionar os saberes tradicionais aos registros disponíveis em bases científicas nacionais, especialmente no Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBR). A proposta é permitir o registro, a sistematização e a validação científica de informações sobre a sociobiodiversidade, incluindo dados passíveis de quantificação e georreferenciamento.
A tecnologia foi concebida para armazenar informações e a ampliar a capacidade das comunidades de produzir, organizar e utilizar dados sobre seus próprios territórios. Dessa forma, poderá contribuir para a governança territorial e para a documentação de conhecimentos e práticas associados à biodiversidade local. Uma plataforma que também poderá produzir evidências técnicas relevantes em situações de conflitos socioterritoriais, fortalecer reivindicações relacionadas ao uso dos territórios e aos conhecimentos associados à sociobiodiversidade e subsidiar processos de interlocução e incidência política das comunidades perante o poder público e outros atores sociais e econômicos.
“Nós estamos prevendo um impacto direto na vida desses povos e comunidades tradicionais por meio da plataforma, ligado ao controle do território, ao controle dos ativos de bioeconomia e ao controle da entrada de pessoas de fora aos territórios”, destaca Nírvia Ravena.
COMUNIDADES COMO PRODUTORAS DE CONHECIMENTO
A participação comunitária constitui um dos eixos centrais do projeto. Em vez de serem apenas fontes de informação para pesquisadores, os moradores participam da construção dos dados e das metodologias que irão subsidiar a ferramenta digital.
Mábia Martins, moradora da Reserva Extrativista Marinha Caeté-Taperaçu, em Bragança, no Pará, destaca que essa aproximação contribui para reconhecer o protagonismo das comunidades na produção do conhecimento. “A importância da comunidade estar trabalhando juntamente com a Universidade é o sentimento de pertencimento e de protagonismo da comunidade, porque nós temos os saberes e o conhecimento, então nós passamos aquilo que aprendemos ao longo dos anos”, afirma.

Comunidades de Bragança, no Pará, participaram de uma oficina de mapeamento georreferenciamento remoto promovido pelo projeto.
As atividades também promovem a aproximação entre comunidades e representantes do poder público estadual e municipal. Para Nírvia Ravena, os encontros têm evidenciado desafios existentes nessa relação. “O projeto facilitou uma série de processos importantes para esses grupos, mas também para as burocracias, que muitas vezes pensam estar próximas a esses grupos e nesses momentos de interação se dão conta da distância que ainda existe.”
Ao transformar os dados produzidos pelas próprias comunidades em informações organizadas, georreferenciadas e relacionadas a bases científicas, o projeto busca estabelecer uma infraestrutura tecnológica que permaneça acessível aos territórios. A expectativa é que a plataforma contribua não apenas para registrar conhecimentos associados à biodiversidade, mas também para ampliar a autonomia informacional das comunidades e sua capacidade de participar de decisões que envolvam seus territórios, recursos naturais e conhecimentos tradicionais.
SOBRE O PROJETO
O projeto “Monitoramento Participativo dos Territórios Tradicionais: plataforma digital de coprodução de dados” é uma iniciativa Amazônia +10, para a criação de uma plataforma digital desenvolvida a partir de processos de cocriação com povos e comunidades tradicionais da Amazônia Legal. A proposta articula conhecimento tradicional, pesquisa científica, tecnologias digitais e metodologias participativas para registrar e validar práticas e conhecimentos associados à biodiversidade. As ações envolvem territórios do Pará, Amazonas e Maranhão e buscam produzir uma ferramenta que possa ser utilizada pelas próprias comunidades na gestão das informações relacionadas aos seus territórios e à sociobiodiversidade.


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